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06.11.2017 | ESPECIAL

Marcas do passado

Pesquisa internacional descobre que habitantes amazônicos domesticaram arroz há 4 mil anos

imagem Sítio Monte Castelo: escavações comprovam uso milenar do arroz

Esqueça as versões de que o arroz chegou ao Brasil trazido por escravos africanos, portugueses ou alemães que colonizaram o Sul do país. Apesar da contribuição destes, às suas épocas, para que o grão se tornasse referencial na alimentação brasileira, pesquisas indicam que há pelo menos oito milênios os habitantes da Amazônia se alimentavam do grão.

A mais importante revelação, porém, foi feita em outubro por cientistas do Reino Unido e do Brasil em artigo na revista Nature Ecology and Evolution: há 4 mil anos os povos amazônicos domesticaram quatro das 22 variedades de arroz conhecidas. Elas nasciam espontaneamente na região e passaram a ser cultivadas regularmente. Plantas produtivas e com grãos maiores foram gradualmente selecionadas em primitivas técnicas agrícolas. As pesquisas foram realizadas de 2014 a 2016.

Além do aspecto histórico, a descoberta tem repercussão científica. Mesmo que o material tenha se perdido na colonização europeia, e parte tenha voltado a cruzar com plantas silvestres, as espécies de arroz encontradas na Amazônia podem servir de base genética ao melhoramento de variedades comerciais. Aliás, esse material genético tem sido alvo de coleta do Banco de Germoplasma da Embrapa Arroz e Feijão, de Goiás, de universidades e de centros de pesquisas e pode auxiliar a gerar plantas mais produtivas e tolerantes a doenças, pragas, invasoras e estresses.

Outros alimentos foram domesticados em época similar: cacau, abóbora, amendoim e milho, este cultivado simultâneo ao arroz. Para traçar um paralelo no tempo, quando os amazônicos formavam as primeiras lavouras, Abraão fundou o Judaísmo e iniciou a Idade do Bronze na China.

A investigação traz luzes a um período pouco conhecido da história, aos hábitos dos povos e para a botânica da região. E pode indicar que as plantas do gênero Oryza s.p foram domesticadas, individualmente, em continentes distintos: Ásia, África e América. No sítio amazônico, os pesquisadores encontraram vestígios de consumo e cultivo das espécies Oryza alta, Oryza grandiglumis, Oryza latifolia e Oryza glumaepatula.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores das Universidades de Exeter, no Reino Unido, de São Paulo (USP), Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Northumbria Newcastle, do Reino Unido, e Federal de Rondônia (UFR), financiado pelo Fundo Europeu de Pesquisa. Participaram Lautaro Hilbert, Eduardo Neves, Francisco Pugliese, Bronwen Whitney, Myrtle Shock, Elizabeth Veasey, Carlos Augusto Zimpel e o coordenador José Iriarte.

 

Pantanal do Guaporé: região alagada domesticou quatro espécies de arroz


O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores das universidades de Exeter e Northumbria Newcastle, do Reino Unido, de São Paulo (USP), Federal do Oeste do Pará (Ufopa), e Federal de Rondônia (UFR). Foi financiado pelo Fundo Europeu de Pesquisa. Participaram: Lautaro Hilbert, Eduardo Neves, Francisco Pugliese, Bronwen Whitney, Myrtle Shock, Elizabeth Veasey, Carlos Augusto Zimpel e o coordenador José Iriarte.


QUESTÃO BÁSICA

A pesquisa foi concentrada no sítio arqueológico de Monte Castelo, no Pantanal do Guaporé, município de São Francisco do Guaporé, em Rondônia. O sítio é um sambaqui fluvial, morro artificial com seis metros de altura construído por gerações com camadas de conchas e terra. A região, de campos abertos alagáveis e pouca mata fechada, é rica em recursos aquáticos, entre eles arroz selvagem. Monte Castelo foi habitado por humanos entre os anos 9.400 e 700 antes de Cristo.


O PATO

Os arqueólogos investigavam o sítio arqueológico de Monte Castelo em busca de evidências sobre o cultivo da mandioca e a propagação do milho na Amazônia. O pesquisador Lautaro Hilbert identificou quantidade tão grande de arroz nos testes que foi preciso redirecionar o estudo. “Atiramos no pombo e acertamos o pato”, compara o arqueólogo Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo (USP). Curiosamente, o arroz selvagem é conhecido na região como arroz-de-pato.


Razões históricas

O arroz foi domesticado por habitantes primitivos há 4 mil anos no território amazônico, que hoje pertence ao estado de Rondônia, nas bacias dos rios Guaporé, Alto Madeira, Mamoré e Beni. Isso aconteceu numa conjuntura que reuniu fatores étnicos, climáticos e geográficos: ocorrência espontânea das variedades, fertilidade das várzeas alagadas e proximidade da zona de transição da floresta com o cerrado.

Outro argumento é a concentração de várias línguas de sete famílias distintas no centro de dispersão dos grupos tupi-guarani. A Europa, por exemplo, tem duas famílias linguísticas. “A diversidade etnocultural e as condições naturais levaram habitantes a desenvolverem as lavouras”, diz o arqueólogo Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo (USP).
O cenário foi descoberto graças à análise de vestígios microscópicos das plantas e põe o sudoeste da Amazônia entre os principais berços da agricultura. Pistas nessa direção vêm dos fitólitos, estruturas de sílica do tamanho de grãos de areia que as plantas produzem. Cada parte do vegetal gera formas distintas de fitólitos, o que facilita a sua identificação.

Este é o terceiro registro independente de domesticação do arroz – além do asiático, há o Oryza glaberrima, que foi cultivado na África Ocidental há 2 mil anos. Diferentes espécies eram semeadas há quase 10 mil anos nas margens do Rio Yangtze, na China.

Mudanças climáticas levaram à domesticação

No estudo da Universidade de Exeter, os arqueólogos analisaram 16 amostras de plantas microscópicas de 10 períodos diferentes encontrados nas escavações em 2014, lideradas pela Universidade de São Paulo, na Amazônia. Maior número de fitólitos foi encontrado no nível do solo mais elevado, sugerindo que o arroz desempenhou papel maior na dieta de pessoas que ali viviam com o passar do tempo.

As mudanças na proporção de restos de casca, folha e caule encontrados em diferentes níveis do solo sugerem que os residentes se tornaram colhedores eficientes, trazendo mais grãos e menos folhas para o sítio. O professor José Iriarte, da Universidade de Exeter, que liderou a pesquisa, disse: “A pesquisa revela uma importância desconhecida do arroz na alimentação das populações da América do Sul. O arroz selvagem era alimento importante e as pessoas começaram a cultivá-lo nas bordas dos lagos ou dos rios”, reforça.

Segundo ele, o clima foi fundamental nesta mudança. “Na época, o clima estava ficando mais úmido e as zonas úmidas se expandindo. Então, os habitantes descobriram que o arroz era um recurso sazonal importante, maduro no pico da temporada de inundações, quando outros recursos estão dispersos e escassos”, resume.



Oriza alta




Oryza grandiglumis



Oryza latifolia

 

Oryza glumaepatula


FIQUE DE OLHO
A pesquisa tem implicações para o futuro sustentável da Amazônia. A criação intensiva moderna de alto rendimento e resistência a pragas reduziu a diversidade genética do arroz cultivado, deixando as culturas mais suscetíveis a doenças e menos adaptáveis aos efeitos das mudanças climáticas. Compreender o processo de manipulação do arroz por antigos nativos americanos e o papel das variedades nativas da América do Sul poderia ajudar a fornecer variedades mais resistentes de alto rendimento e proporcionar maior conhecimento para criadores de plantas interessados ​​na introgressão de genes de espécies de Oryza selvagens em variedades modernas de arroz.


Muitas pistas antes da descoberta

O artigo apresentado à revista Nature Ecology and Evolution, “Evidências para a domesticação do arroz no meio do Holoceno nas Américas”, comprova o plantio e o consumo do arroz por povos primitivos da Amazônia há quatro milênios. E reforça, agora cientificamente, antigos relatos sobre o consumo de arroz selvagem na região.

Relatos históricos e etnográficos datados dos séculos XVI e XIX indicam extensivamente o consumo de espécies de arroz selvagem por grupos indígenas da região do Guaporé, em Rondônia. Semelhante ao método tradicional de colheita de grãos selvagens (Zizania) na América do Norte, há relatos muito antigos de colheitas realizadas de canoa com as pessoas batendo as plantas para colherem os grãos dentro da embarcação.

Relatos sul-americanos sugerem a importância e práticas culinárias envolvendo arroz selvagem. Por exemplo, Félix De Azara, naturalista espanhol, menciona o consumo de um tipo desconhecido de arroz no sul do Paraguai que “alimenta uma nação de guerreiros”. Fernão Cardim, jesuíta português, menciona que o arroz selvagem foi misturado com milho para fazer pão em suas andanças pelo Novo Mundo. E José de Acosta, também no século XVI, descreve seu consumo sob a forma de uma bebida fermentada semelhante ao vinho.

Localmente conhecido como arroz-de-pato ou arroz-do-brejo, o grão selvagem é consumido como fonte valiosa de carboidratos, quando outros recursos alimentares são escassos, pelas comunidades ribeirinhas da Amazônia. Ainda é recolhido e consumido em várias localidades modernas próximas ao local de estudo dos pesquisadores ao longo do Rio Guaporé, como Costa Marquez e Santo Antônio, onde as comunidades costumavam gerenciar assentamentos de arroz silvestre até os anos 50 do século XX.

Este tipo de manejo da paisagem ainda pode ser observado em outras partes da Amazônia, como em campos do município de Manaquiri, na bacia do Rio Solimões. No Pantanal, as comunidades nativas de Guató consomem as espécies nativas selvagens Oriza glumaepatula e Oriza latifolia.

 

POR DENTRO DA CIÊNCIA
* Oryza Oryzoideae (syn. Ehrhartoideae) é uma subfamília da família de gramíneas Poaceae que inclui cerca de 120 espécies em 20 gêneros. A tribo Oryzeae dentro da subfamília de Oryzoideae é composta por 12 gêneros e está distribuída em regiões tropicais e temperadas em todo o mundo.

* Cinco desses 12 gêneros ocorrem na América do Sul: Leersia, Luziola, Rhynchoryza, Zizaniopsis e Oryza. O gênero Oryza compreende 22 espécies selvagens conhecidas.

* Quatro delas são endêmicas da América Latina com uma distribuição tropical-subtropical de Cuba ao delta do Rio Paraná, incluindo o diploide (2 n = 24, AgpAgp) O. glumaepatula e os três tetraploides (2 n = 48, CCDD) Oryza, Oryza grandiglumis e Oryza latifolia. Oryza spp são plantas macrófitas emergentes aquáticas que crescem ao longo dos rios, lagos e margens dos pantanais.

* O. alta, O. grandiglumis e O. latifolia são espécies perenes, enquanto O. glumaepatula pode ser anual, bianual ou perene, dependendo da localização geográfica. Estudos preliminares sobre O. glumaepatula mostram que possui níveis elevados de frações proteicas, albumina e glutelina, que se comparam favoravelmente com as cultivares comerciais de O. sativa. O arroz selvagem também pode ser armazenado por longos períodos e ser bastante produtivo.

* A chegada dos europeus ao continente americano em AD 1492, com a consequente dizimação da população e impacto sobre as práticas culturais, fez com que os traços domesticados desaparecessem gradualmente. A perda de variedades domesticadas é um fenômeno que também ocorreu para outras espécies no continente, tanto no Sul quanto na América do Norte.

 

Edição 64

publicado na edição

Edição 64
Novembro de 2017

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