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01.05.2020 | Artigo

Produtor: quanto um dia nublado reduz a produtividade de arroz na sua lavoura?

 Em tempos em que o mundo atravessa um período de instabilidade, a demanda por alimentos aumenta e a agricultura direciona o foco de suas atividades para maximizar a produtividade de grãos, mostrando que a força do setor no país é fundamental para superar tais barreiras. Pensando na segurança alimentar de quase 10 bilhões de pessoas projetada para 2050, o arroz (Oryza sativa L.) é cada vez mais importante, visto que é o segundo cereal mais produzido no mundo e está presente na dieta de mais de um terço da população mundial e cumpre um papel social fundamental no combate à fome.

A obtenção de maiores produtividades em arroz depende do aumento da biomassa total, que é determinada pelo quanto de energia é produzido durante a fotossíntese e pelas perdas respiratórias, ou seja, está relacionada à quantidade de radiação fotossinteticamente ativa interceptada e absorvida pelas folhas e à eficiência com que estas convertem a energia solar em energia química.

Porém, a necessidade de radiação solar difere entre as fases do desenvolvimento da cultura. Da emissão da primeira folha (V1) até a iniciação da panícula (R0) ocorre a fase vegetativa. Neste período, o sombreamento afeta levemente os componentes de rendimento, pois o perfilhamento ativo e a expansão da área foliar dependerão da temperatura média do ar e da disponibilidade de N. Da iniciação da panícula até a maturação fisiológica (R9) é que o sombreamento mais interfere na produtividade.

Durante este período, o florescimento (R4) delimita dois subperíodos: o subperíodo reprodutivo (R0 até R4), a falta de radiação solar causa efeito negativo no número e na porcentagem de fertilidade de espiguetas; no subperíodo de enchimento de grãos (R4 até R9), o número de grãos por panícula e o peso de grãos são os componentes de rendimento mais prejudicados.

No RS, situações de sombreamento são comuns e ocorrem, principalmente, por conta do fenômeno El Niño, afetando a época de semeadura e o manejo da adubação nitrogenada. Nesse sentido, o objetivo do trabalho realizado pela Equipe FieldCrops em parceria com o Irga, Unipampa e UFSM foi indicar e quantificar a fase de desenvolvimento que a produtividade de grãos de arroz sofre maior penalização por consequência da menor disponibilidade de radiação solar.

Este trabalho foi conduzido nas safras 2017/18 e 2018/19, com experimentos realizados em três regiões orizícolas do RS: Cachoeirinha (Planície Costeira Externa), Santa Maria e Agudo (Região Central) e Itaqui (Fronteira Oeste). Esses locais foram pontualmente selecionados, pois entre eles existe diferente disponibilidade de radiação solar durante a estação de crescimento da cultura, garantindo uma maior representatividade ao trabalho.

Para realizar a restrição de radiação solar, foram utilizadas telas de sombreamento em diferentes níveis e fases fenológicas: 24%, 36% e 43% de restrição durante as fases vegetativa (V3 até R1), reprodutiva (R1 até R4) e de enchimento de grãos (R4 até R9) (COUNCE et al., 2000). Além disso, um tratamento testemunha sem sombreamento.

A tabela 1 resume as informações detalhadas sobre a condução dos experimentos nas duas safras.

A maior disponibilidade de radiação solar influencia no acréscimo de produtividade quando analisado todo o ciclo de desenvolvimento do arroz (figura 1). A relação positiva da produtividade com maiores valores de radiação solar corrobora com os resultados da maioria dos trabalhos que estudam essa relação, pois a radiação solar interceptada pelo dossel determina a quantidade de biomassa e a produtividade de grãos produzida na lavoura.

Figura 1. Relação entre a produtividade (Mg/ha) e a radiação solar incidente (MJ/m2/dia) durante os dois anos de condução do experimento em Cachoeirinha, Santa Maria, Agudo e Itaqui.

Na mesma linha, o estresse causado pelo sombreamento é prejudicial na definição e formação dos componentes de rendimento do arroz (plantas/m², número de espiguetas/panícula, número de grãos/panícula e peso de grãos). Sabendo que cada componente de produtividade é definido em um momento do desenvolvimento da cultura, a análise do impacto do sombreamento por fase de desenvolvimento é muito importante. Nesse sentido, a figura 2 estabelece a relação entre a produtividade e a radiação solar incidente durante as fases vegetativa, reprodutiva e de enchimento de grãos nas duas safras abordadas nesse estudo.

As maiores penalizações em função do sombreamento ocorreram na fase de enchimento de grãos, reprodutiva e vegetativa, respectivamente (Figura 2).
Figura 2. Relação entre a produtividade (Mg/ha) e a radiação solar incidente (MJ/m2/dia) por período de desenvolvimento durante os dois anos de condução do experimento em Cachoeirinha, Santa Maria, Agudo e Itaqui.

Considerando a faixa de radiação solar incidente estudada, cada acréscimo de 1 MJ/m²/dia na média das fases vegetativa, reprodutiva e de enchimento de grãos, contribuiu com 85 kg, 266 kg e 328 kg. Corroborando com esses dados, é verificada a redução no rendimento de grãos de até 48% quando o sombreamento ocorre durante a fase de enchimento de grãos, pois, após o florescimento, o estresse ocasiona declínio da taxa fotossintética, menor acúmulo de matéria seca e capacidade de dreno pelas plantas, reduzindo significativamente o peso de grãos.

Nesse contexto, é possível quantificar a perda de produtividade (kg/dia) por dia nublado para cada fase de desenvolvimento. Na média das duas safras, a radiação solar incidente foi de 25, 23,2 e 21,9 MJ/m²/dia na fase vegetativa, reprodutiva e de enchimento de grãos, respectivamente. Considerando o coeficiente angular da equação das retas da Figura 2 e que um dia nublado tenha 10 MJ/m², a perda de produtividade por fase é de:


* A duração de cada fase de desenvolvimento foi quantificada através do tempo médio em que duraram as fases vegetativa, reprodutiva e de enchimento de grãos entre os locais e entre as duas safras.

As fases do desenvolvimento do arroz que sofrem maior impacto do sombreamento são a reprodutiva e o enchimento de grãos. Isso reforça ainda mais a importância de manejar a época de semeadura para coincidir o período de maior disponibilidade de radiação solar com esses dois momentos, visto que a perda por dia nublado é semelhante nas duas fases.


IORAN GUEDES ROSSATO, ALENCAR JUNIOR ZANON, NEREU AUGUSTO STRECK, FERNANDO FUMAGALI MIRANDA, LORENZO DALCIN MEUS, FELIPE SCHMIDT DALLA PORTA, CLEBER MAUS ALBERTO, MICHEL ROCHA DA SILVA, VLADISON FOGLIATO PEREIRA, ANDERSON HAAS POERSCH, GIOVANA GHISLENI RIBAS, ISABELA BULEGON PILECCO, PABLO MAZZUCO DE SOUZA, DÉBORA DA CUNHA MOSTARDEIRO PONTELLI, CLÉCIO KARSBURG, RENATO ZIMMER, LUCAS ADÍLIO SARI, ISADORA HÜBNER BRONDANI, GUILHERME FOLETTO POZZOBOM.


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