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27.07.2020 | Indústria | artigo inédito

Necessidades de Informação para Consumidores dos Sistemas Alimentares – Fechando as Lacunas de uma Agroindústria Sustentável

por José Rodrigues Filho* e Euda Marques Gouvea Rodrigues

 O conceito de sistema alimentar está passando por uma rápida evolução de significado. Antes focava basicamente na necessidade de alimentar populações crescentes, limitando-se à produção, distribuição e consumo.

Mais recentemente, o conceito mais holístico de sistema alimentar ganha força entre pesquisadores e tomadores de decisão, de acordo com o Painel Global de Agricultura e Sistema Alimentar para Nutrição (Global Panel on Agriculture and Food System for Nutrition – 2016), com uma perspectiva que integra todos os elementos (meio ambiente, pessoas, inputs, processos, infraestrutura, instituições, etc.) e atividades relacionadas com a produção, distribuição, preparação e consumo de alimentos, incluindo os resultados socioeconômicos e ambientais.

Com uma interpretação ampliada dos sistemas alimentares, especialistas de diversas disciplinas e tradições intelectuais estão cada vez mais interessados nas questões relacionadas com a natureza e origem da insustentabilidade de nossos modernos sistemas alimentares.

Apesar de toda mecanização da agricultura e modernas ferramentas de tecnologias de informação, os dados atualmente existentes e disponíveis nos sistemas alimentares tendem a ser fragmentados e incompletos. Esta falta de dados e informações, de forma compreensiva, impede nossa habilidade de compreender de forma holística as dinâmicas e complexidade dos sistemas alimentares.

Por esta razão, alguns autores já chegaram a afirmar que nossas fábricas de alimentos são lugares de “manipulações obscuras”.

No caso do Brasil, a agroindústria demorou muito a fornecer um mínimo de informações de seus produtos aos consumidores, as quais são ainda incompletas e falhas. Contudo, o discurso de sustentabilidade está influenciando os sistemas alimentares em todos os países em direção a transições e transformações, de forma rápida, com importantes implicações para crescentes desafios, incluindo a necessidade urgente de melhor entender os caminhos de sua evolução e recuperar a confiança da mão que nos alimenta, hoje em risco.

Neste sentido, as empresas da cadeia de suprimentos da agroindústria estão enfrentando novas expectativas e buscando comunicar o desempenho social, econômico e ambiental de seus negócios para consumidores dentro da cadeia de suprimentos e consumidores como clientes finais.

Novas iniciativas de sustentabilidade estão acontecendo como as etiquetas de informações nos produtos. Não há dúvidas de que no período pós-pandemia, o discurso de sustentabilidade vai ser intensificado e a agroindústria brasileira vai enfrentar grandes desafios. Com o chamado Green Deal no mercado europeu, produtos contaminados com agrotóxicos e oriundos da Amazônia, dificilmente entrarão na Europa.

Aliás, o setor agrícola do Brasil não é bem-visto no mundo em termos de segurança alimentar, levando a uma intensificação da rastreabilidade da produção, certificação e outras informações não existentes em nossos produtos. Num mercado competitivo, em que as responsabilidades integradas em termos sociais, econômicas e ambientais tornam-se um pré-requisito para um bom empreendedorismo, consideração desta visão integrada é um dos fatores críticos de sucesso para o bom sucesso de longo prazo do setor de alimentos.

Com a integração de sistemas computacionais e melhoria das informações é possível proporcionar soluções para se medir e avaliar a sustentabilidade de produtos ao longo da cadeia de suprimentos. A informação adquirida das características do produto pode ser usada para a tomada de decisão dentro das empresas e para a comunicação de práticas sustentáveis para clientes e consumidores, resultando numa competição crescente das empresas, cadeias de suprimentos e o próprio setor, satisfazendo as necessidades de informação de clientes e consumidores e garantias da sustentabilidade do produto.

Desta feita, desenvolver um modelo de serviço de informação no setor da agroindústria é de fundamental importância e urgência, devendo contemplar segurança alimentar (representando a dimensão de sustentabilidade social), qualidade (representando a dimensão de sustentabilidade econômica) e potencial de informações globais (representando a dimensão de sustentabilidade ambiental). Este modelo foi selecionado pelas seguintes razões:

1) há uma necessidade de garantias da segurança alimentar, como requisito para a confiança do consumidor e aceitação do mercado;

2) no mercado altamente competitivo da agroindústria, a qualidade torna-se uma precondição para a sustentabilidade econômica das empresas do setor da agroindústria;

3) os consumidores demonstram interesses crescentes nos impactos de alertas globais dos produtos alimentares e esperam que varejistas proporcionem informações e garantias dos produtos comercializados.

Assim sendo, torna-se necessário investigar a infraestrutura de informação do setor da agroindústria e as lacunas existentes, considerando as principais dimensões de sustentabilidade, com sugestões de futuras necessidades de pesquisa com foco informacional nas áreas de logística, rastreabilidade, segurança alimentar, qualidade e outros aspectos da sustentabilidade.

Num momento de grandes preocupações com as questões sanitárias, o setor da agroindústria deve se preocupar cada vez mais com a segurança alimentar visando atender as exigências dos mercados e consumidores. A literatura mostra cada vez mais as inseguranças dos alimentos, o medo e pânico universal, que podem ser atenuados através de infraestruturas de informação e da digitalização visando recuperar a confiança de todos.  

*Jose Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard. Recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá, onde desenvolveu trabalho sobre Sustentabilidade e Tecnologia da Informação em Saúde. https://jrodriguesfilho.blogspot.com/ **

** Euda Marques Gouveia Rodrigues  é graduada em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com experiência em plataformas dos sistemas de informação bibliotecários e necessidades de informação da comunidade.(Publicado originalmente em EcoDebate)


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