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05.02.2010 | Consumo
por Carlos Magri Ferreira |Analista da Embrapa Arroz e Feijão
Nos últimos anos os alimentos passaram por transformações quanto às técnicas de produção, processamento, formas de apresentação e outras. A convergência dos gostos dos consumidores foi facilitada também pela melhoria dos sistemas de distribuição e influência de comportamento vinculadas nas mensagens dos meios de comunicação. Entre outras coisas, as modificações suscitaram um novo conceito alimentar. Nesta estratégia os produtos básicos passam a ser utilizados como componentes secundários de produtos mais elaborados. A continuar esse processo, em longo prazo a sobrevivência de alimentos básicos e tradicionais vai depender muito mais de aspectos culturais.
A questão alimentar tem uma ampla relação com a condição humana e pode ser vista sob vários ângulos. Não reflete somente a satisfação de uma necessidade fisiológica, idêntica em todos os homens, ou o prazer de saborear uma comida por puro deleite. Trata-se de uma atividade biológica cercada de aspectos e valores culturais, financeiros, símbolos, mitos, ritos, normas, proibições, saúde. A alimentação depende das estruturas sociais, da visão do mundo, de questões dietéticas e religiosas e das receitas que delas resultam. Por fim, a alimentação faz parte de um conjunto de tradições construídas lentamente no decorrer dos séculos. Contribui para modelar a diversidade cultural, portanto, é um dos itens que expressam a identidade social de cada povo.
Diante dessas premissas é inevitável fazer a seguinte pergunta: “Está realmente surgindo um modelo universal de consumo padronizado ou apenas está ocorrendo um ajuste normal no sistema alimentar?”. Nesse contexto, o que ocorrerá com o tradicional arroz com feijão no prato do brasileiro?
Esse questionamento é muito comum. Um fato que dá força a essa questão é a suposta diminuição do consumo per capita de arroz no Brasil. A falta de informações concretas sobre esse assunto causa muita polêmica. A figura 1 apresenta o resultado de um cálculo do consumo per capita de arroz no Brasil a partir de dados da Conab. Para o cálculo considerou-se a produção, balanço entre importação e exportação, consumo como semente e estoque de passagem. No resultado encontrado observa-se que o consumo per capita apresentou uma grande oscilação. No entanto, a linha de tendência indica uma estabilidade de consumo, portanto, não se confirmando o declínio que é normalmente propalado. Ressalta-se que o arroz tem sido constantemente alvo de informações na mídia com conteúdos enfatizando que o seu consumo provoca efeitos colaterais indesejáveis, como facilidade no ganho de peso e outros.

Na figura 2 observa-se o consumo per capita de alguns países. Percebe-se que existem três padrões de consumo, alto, médio e baixo, que são identificados, respectivamente, padrão asiático, subtropical e ocidental.
Fonte: Adaptados de USDA.
As estatísticas quanto ao consumo de arroz são bastante variáveis e às vezes contraditórias. Segundo o USDA, no período de 1990 a 2009 observa-se uma queda no consumo no Brasil de 51,4 quilos/habitante/ano para 45,3 quilos/habitante/ano. A redução é uma tendência também observada em países de padrão de consumo asiático, como o Japão. Ainda nesse grupo a tendência de consumo em países como a Tailândia e Vietnã, no período considerado, é positiva. No grupo de consumo subtropical a tendência no Senegal e Cuba é positiva. Nesse caso é interessante perceber que outros países da África e da América Latina que pertencem a esse padrão de consumo apresentam propensão de aumentar a demanda. O mais curioso é o aumento em consumo nos países do grupo ocidental, como Estados Unidos e Suíça, pois supostamente não teriam interesse em consumir arroz. Cabe a países com potencial de exportação como o Brasil identificar os motivos dessa mudança e aproveitar para abrir mercados. São pequenos mercados, mas nichos seletivos e com capacidade de absorverem produtos com valor agregado.

Figura 3 - Consumo per capita do arroz, polido, em 1960 e 2010.
Fonte: Adaptados de USDA.
Para responder ao título deste artigo é fundamental considerar alguns componentes que normalmente são citados na literatura como responsáveis pela determinação do consumo de alimentos: a) aspectos socioeconômicos, renda e modo de vida da sociedade; b) disponibilidade de recursos naturais, clima, localização geográfica e tecnologia disponível; c) hábitos, costumes, saúde e religião; d) aspectos culturais; e) preço; f) marketing; g) disponibilidade e confiabilidade do produto ofertado; h) estrutura organizacional de apoio à produção, políticas e legislação nacional e internacional; i) eficiência da indústria de alimentos e do sistema de comercialização.
Antes de avaliar, porém, o caso brasileiro com relação ao arroz vale a pena salientar o caso do Japão, onde em 1960 o consumo per capita era de cerca de 130 quilos/habitante/ano e atualmente está em 65 quilos/habitante/ano. A partir de 2000 o consumo estabilizou. Uma explicação é que o Japão completou seu período de ajuste: os fatores que interferem no consumo entraram em equilíbrio. Pesaram para isso fatores como hábitos, costumes, saúde, religião e aspectos culturais.
Considerando que o Brasil também possui essas características e além disso oferece recursos naturais, clima e tecnologia que permitem a produção de arroz em todo o seu território, pode-se inferir que o brasileiro continuará consumindo altas quantidades de arroz. Assim, o tradicional arroz com feijão estará garantido. No entanto, não é possível prever quando estabilizará o consumo per capita, visto que o país ainda passa por mudanças socioeconômicas, o processo migratório do campo para a cidade persiste em algumas regiões e ainda ocorrem alterações no nível de renda e no modo de vida da sociedade.
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